Sem Provas

Iniciado sem saber aonde vai dar | … the proof of the pudding…

O ser humano é frágil

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Disseram que escritos tristes têm mais audiência. Não significaria isto que há mais pessoas tristes do que felizes? Ontem pensei, e hoje penso novamente, que sem dúvida haja enfermos navegando exatamente neste momento, na internet. Devem estar tristes por suas doenças, impossibilitados de viver “normalmente” a vida. Devem provavelmente estar procurando algum texto na internet, algum site, ou qualquer coisa em que possam se apoiar, pelo menos por alguns minutos. Internet pode acabar sendo um passatempo muito freqüente entre os enfermos.

O ser humano é frágil. Qualquer coisinha, já vem a dor e da dor a frustração. A recuperação é dolorida, e estamos o tempo todo nos recuperando. Quem está doente, sente mais, porque suas revoluções físicas e psicológicas estão mais intensas. Ninguém vai querer dizer que a doença, a dor, tenha algo bom. Há quem veja a realidade de uma forma mais esperançosa, na base do pensamento de que tudo teria uma vantagem. Ficar doente quer dizer que haverá mais força depois. Mas, por mais leve que seja a enfermidade, é um sofrimento que não queremos por perto.

Há doenças que não são sentidas, não apresentam sintomas imediatos. Nesses casos, é muito mais difícil que o doente acredite e admita que está enfermo. O fumante, por exemplo, é um doente. Por mais que seu corpo seja resistente, aquelas tantas substâncias que entram em seu organismo o deixam cada vez pior. Mas dizer que o fumante é um doente não significa dizer que ele ou ela é uma pessoa ruim. Seria o mesmo que dizer que quebrar o dedinho do pé torna alguém pior do que é em caráter. Não, o fumante não é necessariamente uma pessoa ruim. Mas, é evidente que não está bem.

Não somente os fumantes, mas também as pessoas que possuem qualquer enfermidade que seja, são meio revoltadas. Já não é nada fácil acompanhar o ritmo das exigências cotidianas quando estamos com a saúde boa. Quanto mais, então, quando há uma dor de cabeça, um membro quebrado ou um coração falhando?

Havia um livro sobre o ócio. Quer dizer, vários livros talvez falem sobre o ócio. O ócio não é bem visto por essas bandas brasileiras. O leitor poderá bradar contra, dizendo que o ócio é, sim, muito cultuado por aqui. Mas não é assim. Somente quem está doente consegue, nos dias de hoje, perceber o quanto o ócio é não apenas interessante, mas necessário. Mas quem está com a saúde perfeita… ou melhor, que imagina estar com a saúde perfeita, “vive a vida”, muitas vezes entre bebida e relações intensas, mas superficiais. Ficam bêbados e esquecem dos problemas, à la 2046. Não lembram onde estão, nem para onde vão ou não vão. Nunca se tornam ociosos, sempre têm algo a fazer… ou estão inconscientes até os efeitos da bebida terminarem. E não terminam, em alguns casos.

O que você está fazendo hoje? Trabalhando, estudando, divertindo-se ou o quê? Você tem vergonha de dizer que não está fazendo nada? Vergonha não, talvez. Mas a regra do “diga o que eu quero ouvir” manda nunca dizermos que não estamos fazendo nada. Ouvi dizer uma vez que todos somos doentes. Não imagino qual seria o modelo de saúde que a pessoa que disse aquilo usou para tirar a conclusão. Mas, se for verdade que todos somos doentes, então pode ser uma sugestão produtiva dizer, em vez de “nada”, que estamos constantemente nos recuperando das nossas doenças.

Written by Gustavo D'Andrea

August 14, 2008 at 12:47 pm

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