Sem Provas

Iniciado sem saber aonde vai dar | … the proof of the pudding…

Tanto melhor se aquilo for apenas um exercício

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Pode alguém desejar ser egoísta e não conseguir? Que pergunta maluca esta, não é? Não parecerá tão maluca mais tarde, fiquem tranqüilos. Porque o tempo é uma questão. A questão é de tempo.

Procuro ler um blog chamado jfs1982, título que dá a impressão de algo muito tecnológico ou até oriental, ou simplesmente de alguém que tentou criar um username e já existia, sendo obrigado a colocar um número depois. Eu conheço virtualmente a autora do blog, pessoa esta com quem às vezes converso virtualmente também. Havia em seu blog um post de hoje sobre coisas meio confusas, sobre felicidade, afazeres, dedicação etc. Aparentemente, dizia-se que todos teriam as suas colocações, como no livro de Aldous Huxley, sem que ninguém se sentisse deslocado, entendiado ou malfadado.

Para mim, foi um post engraçado, embora eu deva reconhecer um certo drama na autora. Não digo que seu aparente sofrimento seja risível. Não é. Apenas ri porque senti que parte do sofrimento ali se dava porque tudo estava bem para todos, e um poema que ela transcreveu parece falar disso também. É muito provável que ela venha depois me dizer que fiz a interpretação totalmente errada de seu texto, muito talvez dizendo que aquilo era apenas um exercício literário, ou uma dramatização blog-teatral. A impressão é que estou me enganando aqui, e tanto melhor se aquilo for apenas um exercício mesmo.

É difícil olhar para alguém e fazer acreditar que as coisas podem ficar bem e felizes. Mais difícil ainda é não olhar e fazer acreditar nisso. Ouvi uma vez a história de um homem, um pintor de paredes, que sofria de solidão e com o fardo de pintar paredes pelo resto da vida, visto que era a única coisa que ele sabia fazer. Perguntavam para ele se ele era feliz. Ele dizia que não conhecia felicidade. Era um admirador das coisas. Sabia apreciar o que era bom, uma boa conversa que ouvia na sala de jantar de uma casa, enquanto recolhia suas tintas para ir embora, ou uma boa paisagem na fotografia colada na parede que ele começaria a pintar de verde-claro. Seu ajudante, muito jovem, aprendeu a apreciar essas coisas também, e dizia que ficaria rico e daria uma vida diferente ao seu “professor”, que lhe ensinara tudo sobre a arte de pintar paredes.

O pintor então disse que não precisava. Seu aprendiz ficaria rico, mas deveria fazer outra coisa com o seu dinheiro. Novamente lhe foi perguntado se era feliz. Continuava dizendo que não conhecia felicidade, e que a felicidade estaria nas coisas boas que ele sabia apreciar. O aprendiz ficou muito confuso, e pensou sobre o assunto durante uma semana inteira, quase não conseguindo dormir de tanta preocupação com seu professor. Este, muito atencioso, percebeu a preocupação do jovem, mas não disse nada. Apenas esperou.

Uma noite, quando pintavam uma parede, o aprendiz não mais pode se conter e “deu uma bronca” no pintor. Disse que ele não poderia pensar daquele jeito, que poderia ter muito mais, que tinha conhecimento para ter tudo de bom, ser mais do que um mero pintor, e até ficar muito famoso. O pintor perguntou ao aprendiz quem ele era. Um aprendiz, foi o que ele respondeu. E então o pintor disse que era exatamente esta a explicação. O pintor era o pintor, o aprendiz o aprendiz. O pintor sabia o que era bom, mas preferia ficar na sua tristeza porque só ele sabia como era o seu próprio sentimento. Então, todas as qualificações que ele já ouvira de si mesmo eram pouco condizentes com a sua opinião sobre ele próprio. Há muito tempo havia concluído que se as qualificações que grandes pessoas fazem dele estão erradas, então quanto estaria certa a visão dele, que nem felicidade tinha, sobre o que via?

Written by Gustavo D'Andrea

August 12, 2008 at 8:03 pm

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